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Lideranças Indígenas Femininas

Ana Patté: Da Luta Xokleng ao Ministério, Articuladora Chave do Movimento Indígena.

“Ana Patté, indígena do povo xokleng, fala sobre a lei que institui no calendário oficial no estado de São Paulo”. Fonte: Alesp

Revista Digital Ecocídio

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Ativista, Acadêmica e Gestora: A Voz que Combate o Marco Temporal e Fortalece a Pauta Indígena

A líder indígena Ana Patté (Ana Roberta Uglõ Patté), do povo Xokleng de Santa Catarina, é uma ativista e gestora pública cuja trajetória une formação acadêmica e militância política. Graduada em Licenciatura Intercultural Indígena pela UFSC, ela é uma voz central na luta pela demarcação de terras, notavelmente na oposição à tese do Marco Temporal, pois seu povo foi historicamente expulso de seus territórios. Co-fundadora da ANMIGA (Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade) e representante da APIB na região Sul, Ana Patté consolidou seu papel institucional ao assumir a posição de Chefe da Assessoria Especial de Assuntos Parlamentares e Federativos do Ministério dos Povos Indígenas (MPI). Sua atuação se estende ao cenário internacional, contribuindo com a ONU Mulheres na defesa dos direitos das mulheres indígenas, demonstrando ser uma articuladora chave na intersecção entre ativismo, governo e a defesa inegociável do território e da cultura Xokleng.

Fonte/Imagem: https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/composicao/ministra-e-orgaos-de-assistencia-direta/assessoria-especial-assuntos-parlamentares-e-federativos/ana-patte

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Lideranças Indígenas Femininas

🌊 A Força do Cocar no Congresso: Célia Xakriabá e a Luta Contra a Violência Indígena

No coração do poder legislativo brasileiro, um símbolo ancestral rompe a formalidade e confronta a história: o cocar de Célia Xakriabá. Mais do que um adorno, ele é um manifesto vivo da resistência, transformando os corredores frios do Congresso Nacional em um vibrante campo de batalha. Este artigo mergulha na trajetória da líder e deputada que usa a força de sua identidade para expor e combater a violência sistêmica e o ecocídio que ameaçam a vida e os direitos dos povos originários no Brasil.

Revista Digital Ecocídio

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A Emergência do Cocar na Esfera Legislativa: Análise da Atuação de Célia Xakriabá na Defesa de Direitos Indígenas e Ambientais

A deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG), a primeira mulher indígena eleita por Minas Gerais e a primeira indígena doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), rompeu barreiras históricas, desafiando o racismo estrutural e abrindo caminhos para futuras gerações. Sua trajetória educacional e ativista — que inclui o Mestrado em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB) em 2018 e a conclusão do Doutorado em Antropologia pela UFMG em 2024 — iniciada em sua própria comunidade, a capacitou a traduzir a sabedoria ancestral em ações políticas concretas.

Na Câmara dos Deputados (BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS, [2025a]), sua atuação tem se destacado pela defesa intransigente dos direitos indígenas, da proteção ambiental e dos direitos das mulheres. Em março de 2025, sua eleição como presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher (BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS, [2025b]) reforçou a importância de sua agenda, que conecta a luta pela igualdade de gênero com as pautas ambientais e territoriais. Em seu trabalho, ela frequentemente enfatiza a profunda conexão entre a violência contra a Terra e a violência contra a mulher indígena, como vocalizado em eventos como a Marcha das Mulheres Indígenas, onde a proteção dos biomas e a demarcação de terras são pautas centrais.

Ao longo de 2024 e 2025, Célia Xakriabá continuou ativa em diversas frentes:

  • Em 2024, foi reconhecida na categoria de Clima e Sustentabilidade no Prêmio Congresso em Foco (CONGRESSO EM FOCO, 2024), evidenciando seu papel crucial na promoção de uma agenda sustentável.
  • Em 2025, apresentou o Projeto de Lei 3800 (BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS, [2025c]), que visa garantir o direito de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais de utilizarem seus elementos de identificação cultural. No mesmo ano, aprovou outros três projetos focados em educação climática e proteção das mulheres.
  • No campo da educação, impulsionou um projeto que assegura autonomia para que escolas indígenas, quilombolas e do campo escolham seus próprios nomes, promovendo o resgate da identidade cultural.
  • Sua luta por justiça também se estende a episódios de violência, como a denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF) em abril de 2025 sobre a violência policial sofrida durante uma marcha indígena (BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS, [2025d]).

Principais iniciativas legislativas

  • PL 4381/2023: Em fevereiro de 2025, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei de autoria de Célia Xakriabá que estabelece diretrizes para o atendimento de mulheres indígenas vítimas de violência doméstica e familiar. O projeto é pioneiro por ter sido protocolado em línguas indígenas e será traduzido para outras 274 faladas no país. Em seguida, a matéria foi encaminhada para análise no Senado Federal.
  • PL 1527/2025: A deputada também protocolou, em abril de 2025, um projeto de lei que estabelece normas e diretrizes para a prevenção e o combate à violência obstétrica contra mulheres indígenas. A proposta visa garantir o respeito às particularidades culturais e à integridade física e psicológica dessas mulheres durante a gestação, parto e pós-parto.
  • PL no Senado (aprovado em 2024): Em julho de 2024, um projeto no Senado que inclui as mulheres indígenas nos planos de combate à violência da Rede Estadual e da Rede de Atendimento foi aprovado. A proposta, justificada pela preocupante invisibilidade dessas mulheres, altera a Lei 14.899/2024

A luta contra o marco temporal

A articulação política das mulheres indígenas também se manifesta na oposição ao marco temporal. Essa tese jurídica, que já foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), tenta restringir a demarcação de terras indígenas. Lideranças e o governo apontam que o marco temporal aumenta a violência nos territórios e o assassinato de lideranças indígenas. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) denuncia que o marco temporal e a falta de demarcações são formas de violência contra as mulheres indígenas. 

Conexão Corpo-Território

O conceito de “corpo-território” vincula o corpo humano de forma inextricável à terra, contrastando com as visões ocidentais. Para os povos indígenas e comunidades marginalizadas, o corpo é um espaço de resistência contra a violência histórica e a influência colonial, incorporando o conhecimento ancestral e a identidade coletiva. Essa perspectiva vê a demarcação de terras como a demarcação de um corpo coletivo que abrange humanos e natureza. Essa noção decolonial permite que os grupos reivindiquem seu patrimônio e reconheçam o corpo como um território político. Ela ressalta a conexão espiritual e de saúde mental entre as pessoas e seus espaços, especialmente entre as mulheres indígenas que veem seus corpos como interconectados com o território. O conceito é aplicado no ativismo indígena e social para apoiar os direitos à terra e a preservação cultural. Ele fundamenta a educação decolonial, a expressão artística e as práticas de saúde mental, valorizando o conhecimento ancestral e a conexão entre humanos e território.

No dia 28 de janeiro de 2021, o Canal QUILOMBO da UFRJ promoveu uma live imperdível com o professor Eduardo Miranda (PPGE/PPGDCI/UEFS), coordenador do Grupo de Pesquisa Corpo-Território Decolonial, e o professor Wallace de Moraes. A conversa abordou teses sobre a educação sob uma perspectiva afro-brasileira, discutindo decolonialidade, racismo, corpo-território e cultura afro-brasileira. Você pode assistir a este debate enriquecedor para um melhor entendimento do assunto.

O movimento de mulheres indígenas conecta a defesa de seus corpos à luta pela proteção dos biomas brasileiros, o que expressa o conceito de “Corpo-Território”. A Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA) reforça que o corpo da mulher indígena é um território sagrado, assim como a terra, e que a proteção de ambos está interligada. A luta dessas mulheres é pela recuperação de suas humanidades e pela transformação da sociedade, conforme destacado no documento final da IV Marcha das Mulheres Indígenas.

Célia Xakriabá: A Voz da Ancestralidade no Parlamento

Uma série de vídeos no YouTube destacam a atuação de Célia Xakriabá, líder e parlamentar indígena, abordando temas como a cultura e visão de desenvolvimento dos povos originários, epistemologias decoloniais e a defesa da Amazônia e de territórios indígenas. Os vídeos também exploram sua trajetória política, as pautas defendidas no Congresso, a situação dos povos indígenas durante a pandemia de Covid-19 e os desafios enfrentados pelo povo Xakriabá em seu território, incluindo fome, seca e a luta pela demarcação de terras. Você pode encontrar esses vídeos no YouTube.

Obras Publicadas: A Força da Palavra Escrita

Além de sua atuação no Congresso, a Deputada Célia Xakriabá é uma voz ativa na literatura e na produção de conhecimento indígena, sendo coautora das seguintes obras de destaque:

Oboré: Quando a Terra Fala (2021) é uma obra coletiva que reúne as vozes de sete lideranças indígenas dos principais biomas brasileiros — Xacriabá, Fulni-ô, Tapuia, Tukano, Laklano Xoklengue, Kaingang e Guarani — em uma potente narrativa sobre cosmologia, arte, política e resistência. Organizado por Martha Batista de Lima, o livro entrelaça saberes ancestrais e experiências contemporâneas, revelando a profundidade das cosmovisões indígenas e suas conexões com o território.

O vídeo publicado em 21 de março de 2023 pelo canal TV Senado apresenta os bastidores da obra, com depoimentos da organizadora e do cineasta Hugo Fulni-ô. No trecho destacado em [08:42], Hugo reflete sobre o papel da arte indígena como ferramenta de reconexão espiritual e resistência cultural.

📺 Assista ao vídeo completo: https://www.youtube.com/watch?v=EB-pY_2N52Yebook/dp/B0BYFY4X7R
📅 Acesso em: 2 nov. 2025

O livro está disponível em formato Kindle na Amazon:
Oboré: Quando a Terra Fala
Autores: Martha Batista de Lima, Célia Xakriabá, Hugo Fulni-ô, Kaká Werá e outros.
📚 Acesse: https://www.amazon.com.br/Obor%C3%A9-Quando-Martha-Batista-Lima-ebook/dp/B0BYFY4X7R
📅 Acesso em: 2 nov. 2025

 Vozes Indígenas na Saúde: trajetórias, memórias e protagonismos (2022) é uma obra essencial que ilumina o protagonismo indígena na formulação das políticas públicas de saúde no Brasil. A coletânea reúne relatos e reflexões que evidenciam como saberes ancestrais e experiências comunitárias moldam práticas de cuidado e resistência. O texto final do livro apresenta um diálogo potente entre duas jovens lideranças indígenas: Célia Xakriabá e Luiz Eloy Terena (também organizador da obra), que revisitam narrativas históricas sob uma lente contemporânea, articulando memória, território e direitos.

A dimensão estética e simbólica da obra é enriquecida pelas ilustrações do artista visual Gustavo Caboco Wapichana, cujas imagens atravessam as páginas inspiradas nas práticas de cura das mulheres Wapichana — que transitam entre a medicina tradicional indígena e a biomedicina ocidental. A orelha do livro é assinada por Joenia Wapichana, advogada formada pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e mestre em Direito pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, reforçando o compromisso da obra com a representatividade e a justiça epistêmica.

Disponível em: Fiocruz – Vozes Indígenas na Saúde
Acesso em: 2 nov. 2025

A Tolerância Legal como Motor da Crise

A Luta por Justiça É Contínua. O que você acabou de ler é um sintoma. A crise não é apenas de acidentes, mas de um sistema legal que tolera a destruição.

🔎 Ecocídio em Contexto

Para aprofundar este tema e explorar outras publicações da Revista Digital Ecocídio, acesse nossa página de referências essenciais:

🌱 Ecocídio em Contexto – Leituras e Referências

Referências

BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS. As atividades na Câmara dos Deputados incluem a função legislativa… [2025a]. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/deputados/pesquisa/entenda-as-atividades-do-deputado-na-camara. Acesso em: 30 out. 2025.

BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Célia Xakriabá é eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Agência Câmara de Notícias, [2025b]. Disponível em: Câmara dos Deputados – Palácio do Congresso Nacional. Acesso em: 30 out. 2025.

BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Deputada critica ação policial contra indígenas. Agência Câmara de Notícias, [2025d]. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1149999-deputada-critica-acao-policial-contra-indigenas/. Acesso em: 30 out. 2025.

BRASIL. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto de Lei n. 3800/2025. Ficha de Tramitação. [2025c]. Disponível em: Projeto de Lei n. 3800/2025. Acesso em: 30 out. 2025.

CONGRESSO EM FOCO. Célia Xakriabá vence a categoria Clima e Sustentabilidade. Congresso em Foco, 2024. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/6397/celia-clima. Acesso em: 30 out. 2025.

TV MÍDIA INDÍGENA. ANCESTRALITERRA – SABEDORIA INDÍGENA NA POLÍTICA E NA UNIVERSIDADE DEFESA DA TESE DE DOUTORADO DE CÉLIA XAKRIABÁ. Transmissão ao vivo. YouTube, 30 out. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/@tvmidiaindigena. Acesso em: 30 out. 2025.

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Lideranças Indígenas Femininas

🌊 Ecocídio e os saberes ancestrais: a visão de Sônia Guajajara sobre a catástrofe ambiental e a ética planetária

Diante da crescente crise ambiental, o conceito de ecocídio, a destruição em larga escala do meio ambiente, ganha urgência. No entanto, sua dimensão vai muito além da definição jurídica. Este artigo convida a uma reflexão profunda, guiada pela sabedoria ancestral dos povos indígenas e pela voz incansável de Sônia Guajajara. Descubra como a luta indígena pela proteção da Terra não é apenas uma resistência, mas um farol ético que ilumina um novo caminho para a nossa relação com o planeta, mostrando que a verdadeira solução para a crise climática reside na valorização dos saberes de quem sempre viveu em harmonia com a natureza

Revista Digital Ecocídio

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Repensando a crise ecológica a partir da cosmologia e da resistência dos povos indígenas

Este artigo explora a interseção entre o conceito jurídico e ambiental de ecocídio e a cosmovisão dos povos indígenas, com foco especial nas contribuições e na perspectiva de Sônia Bone de Sousa Silva Santos — Sônia Guajajara. Indígena do povo Guajajara/Tentehar (INDÍGENAS, [s.d.]), ela é ativista, deputada federal eleita por São Paulo e atual Ministra dos Povos Indígenas. Argumenta-se que a criminalização do ecocídio, entendido como a destruição em larga escala do meio ambiente, encontra profundo eco e fundamento ético nos saberes ancestrais dos povos originários, que historicamente denunciam a devastação da natureza em seus territórios (ECOCÍDIO, 2025).

A partir da análise das falas, entrevistas e da trajetória de Guajajara, o texto propõe que o conhecimento indígena deve ser reconhecido não apenas como parte da solução para a crise climática, mas como uma chave epistemológica para repensar a relação extrativista e destrutiva da sociedade moderna com o planeta (ANDRADA E SILVA, 2025). A abordagem acadêmica do tema se entrelaça com a luta política, mostrando como a resistência indígena é, na prática, uma frente de combate ao ecocídio.

Sônia Guajajara é, com justiça, reconhecida como a força política em movimento. Ao lado de Célia Xakriabá — O Cocar que “Refloresta” o Congresso, Marina Silva — uma força da natureza — e Polly Higgins — a advogada da Terra —, ela representa uma nova geração de lideranças que não apenas denunciam, mas propõem e transformam.

Sua atuação transcende o simbolismo: ela age, decide, representa e mobiliza com a assertividade de quem carrega a voz de 295 línguas indígenas no país. Segundo o Censo Demográfico de 2022 (IBGE, 2022), o Brasil é o lar de 1.694.836 indígenas de 391 diferentes etnias.

Wiphala e além: a pluralidade das bandeiras indígenas

Esta é uma imagem estilizada de uma mulher indígena carregando uma bandeira que representa os povos indígenas. Embora não exista uma bandeira indígena brasileira oficial, a Wiphala — com seu padrão quadriculado de sete cores — é amplamente reconhecida como um emblema de identidade cultural por diversos grupos na América Latina, incluindo alguns no Brasil. A imagem busca expressar, de forma artística, a força, a diversidade e a representatividade dos povos indígenas, respeitando a pluralidade de símbolos e bandeiras que cada comunidade pode adotar conforme sua história e território.

1. Introdução: o ecocídio sob uma nova ótica

O avanço da conscientização global sobre as crises climáticas e ambientais tem ampliado o debate sobre a criminalização do ecocídio — definido como “atos ilegais ou arbitrários cometidos com o conhecimento de que têm alta probabilidade de causar danos graves, extensos ou duradouros ao meio ambiente”. Embora o reconhecimento jurídico desse conceito represente um marco importante, ele ainda carece de uma base filosófica e ética que ultrapasse os limites da legislação penal (MILARÉ; DAL MASO, 2025).

Nesse contexto, o movimento indígena, com lideranças como Sônia Guajajara, emerge como uma força essencial. A influência exercida tanto na esfera política quanto na simbólica oferece uma perspectiva ancestral que desafia as estruturas convencionais de poder e propõe uma ética planetária enraizada na interdependência entre seres humanos e natureza.

A ascensão de lideranças como Sônia Guajajara ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI) do Brasil não é apenas um feito simbólico, mas a materialização de uma força política e demográfica em expansão, cujos dados oficiais redefinem o panorama nacional. O Censo Demográfico de 2022, conduzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que a população que se autodeclara indígena no país alcançou 1.694.836 pessoas. Este contingente expressivo, concentrado em mais da metade na Amazônia Legal — o epicentro das discussões da COP30 em Belém — representa uma diversidade cultural e linguística sem precedentes, com a identificação de 391 diferentes etnias e 295 línguas indígenas. Tais números conferem à Ministra uma assertividade inquestionável, pois ela não fala apenas por uma minoria, mas por um universo ampliado de povos que detêm o conhecimento ancestral indispensável para a ética planetária e o combate direto ao ecocídio.

A cosmovisão dos povos indígenas — que vê a natureza não como recurso, mas como entidade viva e sagrada — propõe uma lente crítica para compreender a verdadeira dimensão do ecocídio. Este artigo busca preencher essa lacuna, explorando como a luta de Sônia Guajajara pela demarcação de terras, pela proteção da biodiversidade e pela valorização dos saberes ancestrais contribui para fortalecer o debate sobre o ecocídio e ampliar sua compreensão para além do campo jurídico.

2. A cosmologia indígena como antídoto ao ecocídio

A crise ecológica contemporânea é, fundamentalmente, uma crise de percepção. A epistemologia ocidental, que separa o humano da natureza, pavimentou o caminho para a exploração desmedida e a consequente devastação ambiental. Em contrapartida, as cosmologias indígenas (FIOCRUZ, 2023), que se baseiam na interconexão de todos os seres vivos, oferecem um modelo de coexistência e respeito.

Sônia Guajajara tem sido uma voz incansável na defesa desses saberes. Em diversas ocasiões, ela destacou que “o mundo em emergência precisa reconhecer o papel dos povos e dos conhecimentos tradicionais para conter a crise climática” (AGÊNCIA GOV, 2024). Essa afirmação não é meramente retórica; ela aponta para uma reorientação radical de valores, onde a saúde do ecossistema e o bem-estar coletivo são priorizados em detrimento do lucro e da acumulação. O ecocídio, nessa perspectiva, não é apenas um crime contra o meio ambiente, mas um crime contra o próprio tecido da vida, contra a ancestralidade e o futuro de toda a humanidade.

3. Sônia Guajajara e a luta política contra a devastação

A trajetória de Sônia Guajajara, como ativista, líder da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) (UNIÃO, 2024) e, posteriormente, como ministra dos Povos Indígenas, demonstra a transição da luta indígena do campo para as instituições políticas, sem perder sua essência e seus princípios. Suas ações visam combater as políticas e práticas que levam ao ecocídio, como o desmatamento ilegal, o garimpo predatório e a exploração desenfreada de recursos naturais.

A luta pela demarcação de terras, por exemplo, é um dos principais mecanismos de combate ao ecocídio. Terras indígenas demarcadas comprovadamente apresentam taxas menores de desmatamento, funcionando como barreiras de proteção contra a devastação. Guajajara articula essa defesa com uma clareza que une o conhecimento tradicional com a linguagem política, demonstrando que a proteção dos direitos indígenas é indissociável da proteção ambiental (DEMARCAÇÃO, 2025).

4. A valorização do conhecimento indígena como chave para o futuro

A contribuição de Sônia Guajajara para o debate sobre o ecocídio transcende a mera denúncia. Ela insiste na necessidade de valorizar e incorporar os saberes indígenas como soluções viáveis e urgentes. Em entrevistas e discursos, tem enfatizado a importância de aliar o conhecimento científico ao conhecimento tradicional, argumentando que um não pode prosperar sem o outro.

A recente homenagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que lhe concedeu o título de Doutora Honoris Causa, reforça o reconhecimento da importância acadêmica e social de sua visão. A luta pela criação de uma universidade indígena, defendida por Guajajara, é outro passo crucial para formalizar e difundir esses saberes, garantindo que as futuras gerações possam ter acesso a uma educação que respeite e valorize a relação ancestral com a terra.

5. Considerações finais: um novo paradigma para a ética ambiental

O ecocídio representa o ápice da desconexão entre a humanidade e a natureza. No entanto, a trajetória e a voz de Sônia Guajajara oferecem uma poderosa alternativa a esse caminho destrutivo. Seu ativismo e sua capacidade de articular a luta política com a sabedoria ancestral demonstram que a solução para a crise ambiental não está apenas em novas leis (MARCOS LEGAIS, 2025) ou tecnologias, mas em uma profunda mudança de paradigma — um retorno a uma ética de respeito e interconexão.

Este artigo propõe, portanto, que a discussão sobre o ecocídio seja enriquecida pela perspectiva indígena, reconhecendo que a proteção do planeta é inseparável da proteção dos povos que o habitam de forma sustentável há milênios. A contribuição de Sônia Guajajara é um chamado à ação e uma lição de que o futuro do planeta depende, em grande parte, de nossa capacidade de ouvir e aprender com aqueles que sempre souberam viver em harmonia com a Terra.

Sonia Guajajara, uma das mulheres mais influentes do mundo, é entrevistada pelo Roda Viva em 2023

Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas e eleita uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, foi entrevistada pelo programa Roda Viva em 20 de março de 2023. Na ocasião, a ministra abordou temas complexos e persistentes, como o garimpo ilegal em terras indígenas, a crise sanitária enfrentada pelo povo Yanomami e os homicídios de indígenas.

Para abordar esses desafios, o governo federal anunciou a retomada da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas. A bancada de entrevistadores será composta por Luana Genot (diretora do Instituto Identidades do Brasil – IB_BR), Rubens Valente (jornalista da Agência Pública), Gustavo Faleiros (editor no Centro Pulitzer), Leticia Leite (repórter da Sumaúma) e Helena Corezomaé (repórter do Primeira Página/MT). A edição contará ainda com a presença da cartunista Carol Ito. A apresentação do programa é de Vera Magalhães.

Conexões e Perspectivas com Sônia Guajajara (2020-2025)

Explore nossa videoteca e descubra as múltiplas vozes que moldam o debate atual. Deixe-se inspirar pelas ações e pela história de lideranças como Sônia Guajajara, uma das figuras mais influentes na defesa dos direitos dos povos indígenas e do meio ambiente. De documentários profundos a entrevistas esclarecedoras, cada vídeo oferece uma nova perspectiva para você se conectar com histórias e temas que fazem a diferença.

Sônia Guajajara em 2018: A Primeira Mulher Indígena na Corrida Presidencial

A candidatura de Sônia Guajajara à vice-presidência da República em 2018 constituiu um marco histórico na participação política indígena no Brasil. Os vídeos analisados evidenciam a consistência de seu discurso e a relevância institucional de sua presença, que representa diretamente 305 povos e 274 línguas indígenas. Sua atuação contribui de forma concreta para o fortalecimento das pautas socioambientais e dos direitos originários no debate público nacional.

Sônia Guajajara em 2018: A Voz Ativa pelos Povos Indígenas e o Meio Ambiente

Assista a este vídeo de 2018 com Sônia Guajajara, onde sua militância em defesa dos povos originários e do meio ambiente já era notória. O registro mostra a importância de sua atuação, muito antes de se tornar ministra, na luta por direitos e na conscientização da sociedade sobre as ameaças que pairam sobre as comunidades indígenas e a biodiversidade.

A Tolerância Legal como Motor da Crise

A Luta por Justiça É Contínua. O que você acabou de ler é um sintoma. A crise não é apenas de acidentes, mas de um sistema legal que tolera a destruição.

🔎 Ecocídio em Contexto

Para aprofundar este tema e explorar outras publicações da Revista Digital Ecocídio, acesse nossa página de referências essenciais:

🌱 Ecocídio em Contexto – Leituras e Referências

Bibliografia

1. Introdução: o ecocídio sob uma nova ótica

2. Referência Geral da População Indígena (1.694.836 pessoas):

Referência de Etnias (391) e Línguas (295):

Nota sobre a data de 24/10/2025:

  • Embora você esteja lendo a informação antes de 2025, os dados do Censo 2022 são liberados em etapas. Os resultados sobre “Etnias e Línguas Indígenas” foram uma das últimas divulgações temáticas (geralmente ocorrendo no segundo semestre de 2025, de acordo com o planejamento do IBGE).

3. A cosmologia indígena como antídoto ao ecocídio

4. Sônia Guajajara e a luta política contra a devastação

4. A valorização do conhecimento indígena como chave para o futuro

5. Considerações finais: um novo paradigma para a ética ambiental

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🌊 A Trajetória Pioneira da Profa. Adriana Kaingang: Educação e Luta Indígena no Sul do Brasil

Revista Digital Ecocídio

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Adriana Kaingang: A Primeira Doutora do Povo Kaingang e Voz Crítica na UFSC.

A Profa. Adriana Kaingang (Adriana Mink Kokó de Belino Padilha), oriunda da Terra Indígena Chapecó, em Santa Catarina, é uma notável acadêmica e ativista Kaingang, reconhecida por ser a primeira professora indígena efetiva da UFSC e a primeira mulher doutora de seu povo. Com formação em Pedagogia e História, além de Mestrado em Antropologia Social e Doutorado em História pela UFSC, ela atualmente leciona no curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica e coordena o Laboratório de História Indígena. Sua pesquisa e atuação se concentram em debater a história da região Sul, criticando o apagamento da cultura indígena e destacando o conhecimento ancestral em contraste com os impactos da imigração e do capitalismo, além de lutar contra pautas contemporâneas como o Marco Temporal e a negação da presença indígena em territórios tradicionais.

Imagem/Fonte: https://cfh.ufsc.br/2024/05/adriana-kaingang-doutora-em-historia-e-a-primeira-professora-indigena-efetiva-na-ufsc/

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